segunda-feira, outubro 26, 2020
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Caminhoneiros e índios querem discutir Ferrogrão

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Índios kayapós, caminhoneiros e representantes políticos do Pará brigam na Justiça para que a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) faça audiências públicas para discutir a construção da Ferrogrão.

Leia também: ANTT suspeita quebra de contrato da Rota do Oeste

Ferrogrão se trata de um projeto de ferrovia que conectaria a região norte do Mato Grosso ao porto de Miritituba (PA).

As audiências públicas, com participação da comunidade, podem adiar o cronograma do governo federal para viabilizar a construção da linha férrea, que previa a publicação do edital até setembro deste ano.

As reivindicações vão além do pedido por audiências públicas, já que alguns grupos são contrários à construção da ferrovia.

 

Alternativa para rota dos grãos

Se sair do papel, o projeto será um corredor para escoamento da produção agrícola do Mato Grosso, mas competiria com ao menos mais três rotas: a BR 163, a malha ferroviária paulista e a Fico (Ferrovia de Integração do Centro-Oeste).

No caso da malha paulista, a concessionária Rumo prevê fazer investimentos nos trilhos da rota que liga hoje Rondonópolis (MT) a Santos como uma das contrapartidas da renovação antecipada de sua concessão. Já a construção da Fico entre Campinorte (GO) a Água Boa (MT) seria feita pela Vale.

Para viabilizar a Ferrogrão, o governo federal resolveu conceder a rodovia em um modelo de pista simples e por um período de dez anos.

 

Caminhoneiros

Segundo a Folha, caminhoneiros veem a ideia da Ferrogrão como uma ameaça a sua principal atividade econômica.

Wilson Rodrigues, caminhoneiro e presidente do Sindicato dos Caminhoneiros Autônomos)de Sorriso (MT), se diz contrário ao projeto.

“A Ferrogrão só vai beneficiar os grandes produtores e as multinacionais. Nós, caminhoneiros, ficaremos com o prejuízo. Tudo o que gira em torno da rodovia hoje vai acabar: mercados, farmácias, borracharias”, diz.

Segundo ele, a ANTT realizou audiências em cidades como Belém, mas não em comunidades por onde a ferrovia passará. “Eles não vieram para Sorriso, Itaituba ou Miritibuba (PA) ou outros lugares em que as pessoas estão sendo atingidas.”

O presidente da Câmara de Itautuba (PA), Manoel Rodrigues da Silva (PSDB) afirma que a maioria dos 15 vereadores da cidade é a favor da Ferrogrão, mas contra a falta de diálogo com a ANTT.

“Não sabemos por onde a ferrovia vai passar, o que vai ser afetado por ela e o que o nosso município vai ter de retorno com a construção”.

A Câmara ingressou na ação pela audiência pública junto à Associação Comunitária São Francisco de Assis.

 

Indígenas

Sobre as obras, as comunidades indígenas do Xingu enxergam riscos ambientais e reclamam que não têm sido ouvidas pelo governo sobre o projeto.

O líder indígena kayapó Kokoró Mẽkrãnõtire, diretor financeiro do Instituto Kabu, que reúne nove tribos do Pará, é um dos que resistem ao projeto.

“O governo nunca falou com os kayapós, só fez consultas na cidade grande, longe das aldeias. Tem que conversar com as lideranças de cada aldeia, não na cidade.”

O instituto é uma das entidades que move ações judiciais contra o avanço do projeto. Mẽkrãnõtire diz ainda não ter opinião formada sobre o tema, mas afirma temer que a linha férrea “aumente a pressão de madeireiros e fazendeiros sobre os índios.”

Mẽkrãnõtire afirma que os pleitos dos indígenas são diferentes do dos caminhoneiros, mas advogados que atuam nos casos que questionam o projeto mantém comunicação frequente, segundo pessoas familiarizadas com a situação.

 

ANTT

Procurada, a ANTT disse que “tentou realizar uma sessão presencial em Itaituba (PA)” em dezembro de 2017, mas que “os indígenas impediram a entrada dos participantes e o evento teve que ser cancelado.”

Mẽkrãnõtire, contudo, afirma que as manifestações de indígenas podem ter sido mal interpretadas pelo governo. “Tem aldeia com movimentos grandes [de resistência], mas queremos ser ouvidos. Nunca um representante do governo se manifestou para falar com as lideranças.”

A agência reguladora afirma que vai realizar nova sessão presencial “ainda no mês de agosto”, mas não confirmou a data.

“Tendo em vista a hostilidade que a agência foi recebida naquela ocasião, estamos enfrentando dificuldades para encontrar local para realizar o evento. Dependemos de apoio das instituições de segurança pública para salvaguardar a integridade física dos servidores da ANTT, o patrimônio público e as instalações físicas do local a ser contratado.”

Para o advogado Silvio Martinho, que representa, “de fato houve manifestação dos índios, mas a ANTT cancelou uma audiência também em Novo Progresso, mesmo sem protestos da comunidade local”.

 

Adaptado de Folha de S. Paulo

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